(Marco de Moraes)
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Uivos sós
Era um instante noturno no largo quintal em que duas mãos ardidas abusavam de maus tratos contra um amigo acossado por uma briga. Os uivos do cão largado ao relento eram efeito do lamento do seu dono relapso, em pleno abandono de uma solidão cativa e convencida nos pés frouxos pela falta de saber ceder. A insensatez que o dono apreciava silenciava cada tentativa de vã filosofia, sua falta de razão nua defendida a esmo com todo o quê de orgulho que mantinha, mesmo debilitado por si só. Não bastasse ser condenado à solidão que ele provocou, não buscou meios para abrandar as olheiras que aceitou havia muito, maltratando então o último (e também primeiro) companheiro cujo rabo posto entre as pernas denunciava não só o medo da sua necessidade de atenção, porém expunha também a carência que o seu dono sentia naquele quintal vazio.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Desde que verdadeiro
Negar que haverá amanhã não passa de uma covardia, ao passo que o abandono de sonhos faz de você tão ou mais impotente do que quem está ao seu lado à espera de um fim semelhante (ser feliz). Trata-se do mesmo dizer que tapar os ouvidos é um sinal de ignorância, enquanto tapar os olhos é uma morte anunciada, porque esconder-se no escuro e abster-se do gozo da vida perante equívocos cometidos não faz de você merecedor de melhores sortes que ninguém. Uma péssima sensação deve ser a desistência perante a conclusão tão vã quanto imprópria de que nada se pode fazer para afastar males. O desejo sincero não é um pecado, é a chance de tornar palavra, e assim verbo, a beleza que se tem dentro de si.
(Marco de Moraes)
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Brado desinibido
Grite, não hesite, deixe a reclusão e vença o silêncio em busca de uma resposta, um intuito, um exagero capaz de quebrar os limites de um acaso munido de grossa timidez. Seja livre de censura, da culpa que não lhe serve, do amargo embaraço inconveniente por inibir os seus sentidos dentro daquilo que tanto está preso na sua angústia por dizer. Alcance a liberdade e atravesse a própria capacidade com a destreza de quem separa o que tem mérito e o que é vulgar. Grite, mas faça alto para que você ouça, reflita e entenda, pois se a sua voz nada diz à sua alma, não espere que outrem o faça por você.
(Marco de Moraes)
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Pensares insones
Muitos pensamentos à toa vieram à tona ao conhecer quem me dissesse, sem medidas acanhadas, que palavras apanhadas antes de acostar-se devem ser derramadas no papel (nosso pensar vem repentino e se vai feito moleque em um pique no desatino divertido que, assim entendi, é intencional). Numa brincadeira de muitos convidados, a seriedade da rotina seria como um ponto de vista, subjetiva, e o interpretar diário árduo seria uma piada de mau gosto em que só um lado ri, no passar de malandragens esvoaçadas, tolas. Vai-se o céu claro de todo dia e chegam os brilhos pequeninos espalhados no véu escuro sob o qual uns dormem, enquanto outros se intrigam ao lê-los pela travessia do tempo, entendendo a ordem dos dias, os bons e os ruins. Tenho o pincel à mão, embora tintas não saiba misturar para a tela cobrir; tenho a caneta pronta e então escorro palavras, tatuando ao bel-prazer os pensamentos. Torço para que a falta de jeito com o pincel permaneça, tal qual a intimidade com a caneta cheia me faça borrar papeis ingênuos e que a vivência possa dizer o que entendo de mim, do mundo e dos arredores. A falta de sono se dá pela vontade de viver.
(Marco de Moraes)
quinta-feira, 31 de março de 2011
Um quarto de violeta
Era um quarto de Violeta, de uma Violeta ao chão em
cacos dispersos nos seus cantos chochos, sem timbre, aqueles pequenos quatro
cantos fugidios; seus cantos e os outros cantos eram ecos vazios.
Sua lamúria era dó, enquanto seus sussurros davam
ré, rentes às janelas entreabertas, convites para se estar só. Àquelas janelas
perpetuavam delicadas cortinas alvas, salvas de antemão da mão a erguer uma
flor despetalada.
Em quantos espinhos se feriu, pois que teimosa como
uma rosa rodeou com dedos delgados a haste pontiaguda da flor?
Era do seu contragosto, todavia de bom grado: o
trinco cego da porta foi retirado, a chave foi sem delonga partida e o mundo de
fora não mais serviria assim que as janelas do quarto se fechassem para calar o
ranger. O adeus de um amor murcho fez da Violeta muda e desditosa em um
princípio desconhecido, vencido por ela, derrotado para ela, vez que bastaria entender
como ser sua antes de ser de outrem (não é nas mudas que brotam vidas também?).
Sua lamúria perdurou sendo dó até seus olhos,
cheios, adormecerem no assoalho amadeirado, antes de chegar ao sol.
- Então isso é uma escala – ela confessou às
paredes.
Era um quarto de violeta, mas poderia ser um terço,
ou metade.
(Marco de Moraes)
segunda-feira, 21 de março de 2011
Afável chuvisqueiro
Era plena tarde quando assistia
A chuva fina, que fresca caía
E o pássaro repouso num fio
Com asas silentes, úmido assobio
A vista, à rua estreita em saltos incertos
Acima de blocos infindos, nos muros desertos
De onde nascia uma vida, botão pequeno
Em meio ao clima deveras ameno
Em que eu, observador entre pálida grade
Pasmava ante a riqueza daquela simplicidade.
A chuva fina, que fresca caía
E o pássaro repouso num fio
Com asas silentes, úmido assobio
A vista, à rua estreita em saltos incertos
Acima de blocos infindos, nos muros desertos
De onde nascia uma vida, botão pequeno
Em meio ao clima deveras ameno
Em que eu, observador entre pálida grade
Pasmava ante a riqueza daquela simplicidade.
(Marco de Moraes)
quinta-feira, 10 de março de 2011
Fantasia à rotina
... e cantarolamos sem pejo, confiando nossos corpos nas chances foliãs cantadas, marcadas por apitos embriagados entre inúmeros sorrisos que guardei comigo (enquanto saltitante contigo) por aquelas ruelas sem nome.
Foi naquele bloco irrequieto que abafei a tristeza como quem cala a incerteza com o rufar dos tambores, junto das melodias nos sopros de metal banhado.
Fomos marchas, fomos escarnes, fomos o esquecimento ingênuo da rotina. Agora, somos uma quarta acinzentada, esperança do próximo bloco, a próxima fantasia.
Foi naquele bloco irrequieto que abafei a tristeza como quem cala a incerteza com o rufar dos tambores, junto das melodias nos sopros de metal banhado.
Fomos marchas, fomos escarnes, fomos o esquecimento ingênuo da rotina. Agora, somos uma quarta acinzentada, esperança do próximo bloco, a próxima fantasia.
(Marco de Moraes)
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Abaixo dos próprios vazios
Eles têm boca, porém seus cigarros são falsos (logo os deles, sorrisos plastificados); eles mantêm os olhos bem abertos, todavia centrados em obviedades de fundos vãos; eles têm onde pôr chapéus, mas ideias, não; em verdade, eles são castrados, pois nada criam; eles fingem, e você acredita, por quê? O mundo está vazio de novo, posto que cheio de repetições. Não de hoje, já percebia “olha, eu sei fazer” em cada via na qual via um alguém intento a ter um tanto, mesmo o mínimo, da minha atenção e da sua também. Você bateu palmas? Assobiou? Vibrou? Eu evitei. Há de se entender sobre necessidades – aparecer, ter, ganhar, perder –, mas o meio de fuga visto hoje é infundado, é abusivo... Elas cantam a esmo, há muito fazem o mesmo (tão similares!) e se imitam a atrair quem possa ver-lhes com bons olhos. Deve ser a falta de ego, ou o excesso, que impele ocos se manifestarem, embora nada tenham a dizer. As frases são prontas; os corpos, refeitos; as roupas e os cabelos, nada mais que efeitos; são estilos trajados sem fios descentes, conquanto convincentes de que elas (pessoas) são mais que qualquer um. Elas estão abaixo dos próprios vazios e não há intrépidos suficientes para descobrir o véu turvo que lhes preserva a imagem. A imagem é a primeira vista, uma promessa imergida, uma linha inibida e incerta de gente esperta que fala só o que se quer ouvir, não o necessário. Eu me cansei, sentei-me há tempos e me silenciei assim que as cortinas e as luzes se fecharam. Mas e os outros, por que ainda aplaudem de olhos tapados?
(Marco de Moraes)
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Cabelos
... com as pontas dos dedos provei da tua pele fina e, desejoso, atestei o quão bom é o conforto dos teus lábios, vez sem par na qual quis o tempo parar, mas ele foi desobediente e pôs-se a continuar, deixando na lembrança a música e palavras sussurradas nos ouvidos abaixo dos fios de cabelo. Teus olhos amenos eram pequenos no escuro onde pouco se via um ramo com pétalas lilases...
(Marco de Moraes)
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