quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Quintessência


Com o seu verde singelo de movimentos calmos separava o punhado de terra onde foi semeada pelo bico inocente daquele que batia asas de volta para casa. Criança de caule frágil, regozijava o bom da vida antes de as folhas surgirem para minúsculas sombras formar para transeuntes menores. A dança da vida deveras complicada para muitos tinha a força da pureza distante da tristeza, exposta ao calor ensolarado, ao frescor noturno sereno, ao rigor resfriado, à luz do poente ameno. O mundo à sua volta lhe era tudo ao passo que não se importava com nada, vivia. Quando à flor da idade, distribuía esperanças de vida a flor aberta em pétalas por espalhar ínfimas essências ao ar. Lembre-se: quanto mais perto, mais entendedor de mínimos manifestos de vida dentro de todo o nosso redor. Antes de indagações, a essência de tudo pode dar sentido a respostas para as perguntas mais complicadas.

(Marco de Moraes)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Desmedido


Quanto medo e restrição impõem à vida de quem não se aventura os acanhamentos que, não porventura, abafam as chances de traduzir o desejos mais profundos em atitudes? A medida do tempo é objetiva, todavia cabe à nossa coragem fazer dela subjetiva, tal qual oportuna, nas linhas da intimidade entre os irmãos tempo e espaço. Longas distâncias podem ser percorridas, já os dias pomos guardados nas semanas, dentro de meses e anos. O primeiro dia é alívio, o segundo é perfeito, o terceiro se mescla na despedida e na vontade por voltar ao primeiro. O tempo pode ser de um dia ou mais, contudo o sentimos como se fossem apenas segundos ao lado de quem amamos.


(Marco de Moraes)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Às meninices matutinas

Entregue a devaneios bambos senti o cheiro ingênuo da infância remetido às lembranças dos azulejos marrons – não mais fabricados – presos às paredes do corredor que antecedia o quintal da frente, acesso às estripulias descalças com pequeninas carambolas de vidro entre os dedos das mãos e uma bola de borracha dura conduzida por pés cobertos terra. Não poucas foram as manhãs que corriam ligeiras tais quais os inúmeros piques de nome inventado. Nossos dias passaram perante os olhos distraídos, sem doer, deixando pistas para histórias nas marcas de machucados há muito fechados e que nos lembramos risonhos ao tocá-los. Por vezes, a nostalgia é um aperto leviano no peito, um pano morno sobre as dores sentidas perante o dia-a-dia em um mundo rude e desigual.


(Marco de Moraes) 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uivos sós

Era um instante noturno no largo quintal em que duas mãos ardidas abusavam de maus tratos contra um amigo acossado por uma briga. Os uivos do cão largado ao relento eram efeito do lamento do seu dono relapso, em pleno abandono de uma solidão cativa e convencida nos pés frouxos pela falta de saber ceder. A insensatez que o dono apreciava silenciava cada tentativa de vã filosofia, sua falta de razão nua defendida a esmo com todo o quê de orgulho que mantinha, mesmo debilitado por si só. Não bastasse ser condenado à solidão que ele provocou, não buscou meios para abrandar as olheiras que aceitou havia muito, maltratando então o último (e também primeiro) companheiro cujo rabo posto entre as pernas denunciava não só o medo da sua necessidade de atenção, porém expunha também a carência que o seu dono sentia naquele quintal vazio.


(Marco de Moraes)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Desde que verdadeiro

Negar que haverá amanhã não passa de uma covardia, ao passo que o abandono de sonhos faz de você tão ou mais impotente do que quem está ao seu lado à espera de um fim semelhante (ser feliz). Trata-se do mesmo dizer que tapar os ouvidos é um sinal de ignorância, enquanto tapar os olhos é uma morte anunciada, porque esconder-se no escuro e abster-se do gozo da vida perante equívocos cometidos não faz de você merecedor de melhores sortes que ninguém. Uma péssima sensação deve ser a desistência perante a conclusão tão vã quanto imprópria de que nada se pode fazer para afastar males. O desejo sincero não é um pecado, é a chance de tornar palavra, e assim verbo, a beleza que se tem dentro de si.


(Marco de Moraes) 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Brado desinibido

Grite, não hesite, deixe a reclusão e vença o silêncio em busca de uma resposta, um intuito, um exagero capaz de quebrar os limites de um acaso munido de grossa timidez. Seja livre de censura, da culpa que não lhe serve, do amargo embaraço inconveniente por inibir os seus sentidos dentro daquilo que tanto está preso na sua angústia por dizer. Alcance a liberdade e atravesse a própria capacidade com a destreza de quem separa o que tem mérito e o que é vulgar. Grite, mas faça alto para que você ouça, reflita e entenda, pois se a sua voz nada diz à sua alma, não espere que outrem o faça por você.


(Marco de Moraes) 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Pensares insones

Muitos pensamentos à toa vieram à tona ao conhecer quem me dissesse, sem medidas acanhadas, que palavras apanhadas antes de acostar-se devem ser derramadas no papel (nosso pensar vem repentino e se vai feito moleque em um pique no desatino divertido que, assim entendi, é intencional). Numa brincadeira de muitos convidados, a seriedade da rotina seria como um ponto de vista, subjetiva, e o interpretar diário árduo seria uma piada de mau gosto em que só um lado ri, no passar de malandragens esvoaçadas, tolas. Vai-se o céu claro de todo dia e chegam os brilhos pequeninos espalhados no véu escuro sob o qual uns dormem, enquanto outros se intrigam ao lê-los pela travessia do tempo, entendendo a ordem dos dias, os bons e os ruins. Tenho o pincel à mão, embora tintas não saiba misturar para a tela cobrir; tenho a caneta pronta e então escorro palavras, tatuando ao bel-prazer os pensamentos. Torço para que a falta de jeito com o pincel permaneça, tal qual a intimidade com a caneta cheia me faça borrar papeis ingênuos e que a vivência possa dizer o que entendo de mim, do mundo e dos arredores. A falta de sono se dá pela vontade de viver.


(Marco de Moraes) 

quinta-feira, 31 de março de 2011

Um quarto de violeta

Era um quarto de Violeta, de uma Violeta ao chão em cacos dispersos nos seus cantos chochos, sem timbre, aqueles pequenos quatro cantos fugidios; seus cantos e os outros cantos eram ecos vazios.
Sua lamúria era dó, enquanto seus sussurros davam ré, rentes às janelas entreabertas, convites para se estar só. Àquelas janelas perpetuavam delicadas cortinas alvas, salvas de antemão da mão a erguer uma flor despetalada.
Em quantos espinhos se feriu, pois que teimosa como uma rosa rodeou com dedos delgados a haste pontiaguda da flor?
Era do seu contragosto, todavia de bom grado: o trinco cego da porta foi retirado, a chave foi sem delonga partida e o mundo de fora não mais serviria assim que as janelas do quarto se fechassem para calar o ranger. O adeus de um amor murcho fez da Violeta muda e desditosa em um princípio desconhecido, vencido por ela,  derrotado para ela, vez que bastaria entender como ser sua antes de ser de outrem (não é nas mudas que brotam vidas também?).
Sua lamúria perdurou sendo dó até seus olhos, cheios, adormecerem no assoalho amadeirado, antes de chegar ao sol.
- Então isso é uma escala – ela confessou às paredes.
Era um quarto de violeta, mas poderia ser um terço, ou metade.



(Marco de Moraes)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Afável chuvisqueiro

Era plena tarde quando assistia
A chuva fina, que fresca caía
E o pássaro repouso num fio
Com asas silentes, úmido assobio

A vista, à rua estreita em saltos incertos
Acima de blocos infindos, nos muros desertos
De onde nascia uma vida, botão pequeno
Em meio ao clima deveras ameno
Em que eu, observador entre pálida grade
Pasmava ante a riqueza daquela simplicidade.


(Marco de Moraes)