sexta-feira, 15 de junho de 2012

Soluções


Dilemas formavam-se dando azo
aos temas caídos uns sobre outros.
As rimas apinhavam-se, não acaso;
mas e os temas, eram sobre o quê?
Fazia falta velar,
cobrir o sofrer com ternura.
Faltou ser brando, mesmo que bambo,
acalmar as faltas dos porquês.
Dias estranhos se estendiam
até os descansos irrequietos.
Cativo efeito no tempo disperso,
ainda que necessário à razão. 
Quiçá intimidando a ordem das coisas
encontraria as respostas, enfim.
E se eu fosse além,
além,
isolaria as agonias,
seria um arteiro,
guardaria todas elas num envelope pequeno
debaixo do meu travesseiro.


(Marco de Moraes)

sábado, 28 de abril de 2012

Rotina

Nomeou incômodas as sensações de fadiga, manifestando com sorriso singelo a alegria do encaixar de chave na fechadura ao chegar em casa tão tarde. Como a palavra perfeita havia fugido, aceitou se considerar "morta".

O capacho chiava, o trinco se retirava, ela coloria a sala dando vida ao lustre pendente no teto enquanto acessava a entrada roçando os calcanhares para retirar os calçados. Aquilo era tão bom para aliviar calos doloridos! Os sapatos caíam deixados de qualquer jeito sobre o tapete onde correspondências persistiam intocadas desde a tarde anterior.

Contas, quantas contas...

Seu corpo retrucava com estalos quando se espreguiçava, e estapear as roupas certamente a livraria das mazelas daquele dia que, de tão cheio, tinha parado apenas para engolir o lanche sem tempo para trocado entre os trabalhos.

Àquela altura, preparar café e sentir seu odor amenizaria os ânimos, assim como esquentar pão com manteiga a reanimaria para um banho quente antes de se deitar. Pertinaz, não se fazia vítima da rotina pesada porque, no fundo, sonhava com o aguardado dia em que as mudanças há tanto planejadas finalmente aconteceriam graças à dedicação nas telas em que pincelava suas doses de alma nas horas vagas.

Ela queria bem, queria mais, mas sabia não ser pedir demais viver daquilo que tanto se gosta.

(Marco de Moraes)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Apenas seja

Se é comum podermos realizar desejos sinceros enquanto sonhamos, então somos capazes de fazer da realidade um sonho bom quando nos tornamos fieis às nossas verdadeiras vontades.


(Marco de Moraes)

sábado, 3 de março de 2012

Destro João

João, morador de vila erma sem limites ou portão, despertava todos os dias antes de o galo magrelo do vizinho anunciar o raiar matinal. Seus olhos eram os primeiros da casa dispostos a enxergar as telhas tortas acima da cama velha assim que acendia o lampião que conduzia às madeiras bambas postas no meio da salinha – único cômodo, também quarto e cozinha – que serviam de apoio no qual desjejuava cafés-da-manhã sem café enquanto iniciava as leituras diárias mastigando pão velho e roendo rapadura, tudo com a ajuda de um copo d’água. As migalhas caíam aos pés ao passo que as letras eram sorvidas com o prazer de tempo restrito, pois que a labuta pesada impedia a dedicação ao gozo da leitura e seu pai cria ser o livro grande perda de um precioso tempo de labor – muitos os trabalhos; miúdos os ganhos – para o que comer no sertão. João lia as linhas centrado em cada palavra e virava páginas de Vidas Secas com a mão canhota, a solitária, já que perdera a direita trabalhando num canavial (uma pena,  vez que era destro). Persistir nas leituras resultou na vontade de escrever, então reproduzia cada página, às escondidas e de pouco em pouco, com um pedaço fino de carvão nos papeis de pão, até a madrugada em que decidiu partir da vida na caatinga para ser escritor, deixando promessa profunda de retorno na caligrafia feia do bilhete de cantos rasgados para o pai ranzinza. Acredite, deseje, pois há de superar adversidades em busca daquilo que se quer.


(Marco de Moraes)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O “supérfulo” não existe

É em meio aos corres-corres pelas ruas do cotidiano que pés afoitos atravessam de um lado a outro em busca de objetivos dos mais distantes daqueles que são os verdadeiros desejos que tanto se anseia alcançar. Quiçá o problema esteja na falta de saber separar o que se quer e o que se precisa, sendo as queixas uma questão de oportunidade dos muitos insatisfeitos do modo de viver. Todos culpamos os dias curtos pelos comuns “quem sabe um dia, hoje não...”, pois carecemos de desfrutes tão simples como: o passar de brisa no rosto, a lembrança de uma piada engraçada, o gosto de café bem feito. Poucos miram os olhos de outrem, poucos agradecem um favor, poucos os que sequer observam às quantas anda o próprio humor, propício a furor descabido. Foi numa tarde de pressa rotineira que ouvi os assobios do violino tocado pelas mãos humildes de um pedinte numa calçada onde inúmeros passos impacientes não dedicavam uma ínfima fatia do seu dia para apreciar Música Clássica entre tantas vozes desafinadas e berros de buzinas. Incrível é observar como somos vítimas de um ciclo do qual se torna difícil sair, vivemos em dias de uma sociedade que se distancia do que é apreciável e se aproxima do que é supérfluo, porque este sim, além de existir, faz-se presente em todos dias que cada vez menos sentimos passar.


(Marco de Moraes)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Zodíaco


Seu dedo esticado apontava vislumbrado para as estrelas coladas naquele véu escuro que cobria o céu além do muro no qual se sentava todas as noites. Ela delineava tranquila um sem número de constelações utilizando apenas os olhos, e formava vários desenhos unindo os pontos cintilantes com traços entre eles - pontos por demais pequeninos, traços assaz finos -, preenchendo o firmamento com pinturas luminosas. Um quadro pulcro. 
Suas paixões partiam no pé diurno e retornavam no pé noturno pela alegria da ida do dia em fins de tarde com ares de missão cumprida. 
Seu vislumbre se avolumava vez por vez, ao ponto de desejar ter para si as luzes mais atraentes e guardá-las nos bolsos. 
Foi num sonho (o mais belo) em que conseguia voar e tocar com as mãos os elevados pontos brilhantes que ela escolhia e retirava para si os pontos mais cândidos, para depois tornar ao repouso em cima do seu muro convicta de que havia muito daquelas estrelas no seu interior. Não poucas vezes havia encontrado respostas lendo o céu estrelado. Percebeu quando desperta, já noite seguinte, que o céu escureceu demais, então abriu os bolsos iguais para libertar as luzes de volta para o firmamento, possibilitando assim a mescla entre o lúdico e o real. 
Com isso, entendera acerca da liberdade e do papel preenchido por cada um em tudo o que existe. Seus olhos brilhavam como as pedras celestes, que correspondiam com fachos de gratidão mais intensos quando assistidas pelos olhos da sua espectadora.


(Marco de Moraes)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Desculpe se ofendi

Seria bem-vinda uma dose dupla de tranquilidade capaz de me convencer de que o que vejo lá fora é bom, é justo, porque na maioria dos meus longos dias (os recentes) o que vejo são tentativas alheias de encher o próprio copo, pouco se importando com o espaço do seu semelhante - ou com o que ele pensa. Egoístas ou não, pediria favor para entenderem o quão ruim é compartilhar da ignorância de outros pelo preço barato de um nada; ademais, é uma pechinca que dispenso, dou de ombros mesmo. Que a dose me seja generosa, talvez servida com gelo, porque árduo é perceber quando querem que engulamos discursos esfarrapados de que está tudo bem, quando ouvimos as suas promessas por melhores condições. O que me falta entender - e confesso, isso irrita - é ver que quem está embaixo ofende o seu semelhante, quando as ofensas que mais doem vêm de cima.


(Marco de Moraes)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sobre músico-poesia

Sou culpado confesso que percebe na música mais fragmentos de nós do que se possa imaginar. Música é terapia, bem como a poesia que versa o que somos, o que queremos expor de belo e de feio do nosso interior gritante mesmo que a sós o façamos. Comparo aqui o virtuosismo celere de instrumentistas com a escrita difícil de quem mostra a destreza - dotada de vazios - de quem conhece o que faz, embora falte cumplicidade no momento em que muito falam, mas nada dizem (não é assim que instrumentos e penas choram). Ter olhos para observar o dia-a-dia é essencial, mas o quão importante se faz um som marcante para o primeiro passo desejoso pela chegada de um dia promissor e o último passo para o adeus de um dia que se foi tarde. Nestas últimas linhas - espero não errar - ainda cabe perguntar como se acham dignas de respeito pessoas que dedicam seu tempo por chamar a atenção para mostrar o quão ocas são.


(Marco de Moraes) 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Respire, aspire a, viva!

Mesclar a realidade com sonhos, quando na medida certa, é um dos caminhos para se ter uma vida mais feliz.
(Marco de Moraes)