sábado, 3 de março de 2012

Destro João

João, morador de vila erma sem limites ou portão, despertava todos os dias antes de o galo magrelo do vizinho anunciar o raiar matinal. Seus olhos eram os primeiros da casa dispostos a enxergar as telhas tortas acima da cama velha assim que acendia o lampião que conduzia às madeiras bambas postas no meio da salinha – único cômodo, também quarto e cozinha – que serviam de apoio no qual desjejuava cafés-da-manhã sem café enquanto iniciava as leituras diárias mastigando pão velho e roendo rapadura, tudo com a ajuda de um copo d’água. As migalhas caíam aos pés ao passo que as letras eram sorvidas com o prazer de tempo restrito, pois que a labuta pesada impedia a dedicação ao gozo da leitura e seu pai cria ser o livro grande perda de um precioso tempo de labor – muitos os trabalhos; miúdos os ganhos – para o que comer no sertão. João lia as linhas centrado em cada palavra e virava páginas de Vidas Secas com a mão canhota, a solitária, já que perdera a direita trabalhando num canavial (uma pena,  vez que era destro). Persistir nas leituras resultou na vontade de escrever, então reproduzia cada página, às escondidas e de pouco em pouco, com um pedaço fino de carvão nos papeis de pão, até a madrugada em que decidiu partir da vida na caatinga para ser escritor, deixando promessa profunda de retorno na caligrafia feia do bilhete de cantos rasgados para o pai ranzinza. Acredite, deseje, pois há de superar adversidades em busca daquilo que se quer.


(Marco de Moraes)

Um comentário:

  1. Show amigo, belo texto.

    Um abraço,

    Wellington Ferreira

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