sexta-feira, 29 de março de 2013

Bons frutos


        O que sobrou foram as sementes. Severo seria, além de um bom mentiroso, menino teimoso se espalhasse para os quatro ventos que os frutos de acerola do quintal de casa eram coisas bobas, nada de mais. 
       - Desce dessa árvore agora! - não havia um dia sem um desses berros vindos da sua mãe. Adultos eram chatos, então seguia as vozes das crianças que só ele ouvia nas brincadeiras de menino solitário que perdiam a hora encontrando mil desculpas para uma estória ou outra ter o final feliz mordiscando daquelas pequenas. Não havia ambições. Como entender as queixas do pai acerca dos males do mundo, se para sorrir bastavam acerolas? Naqueles poucos metros de chão vivia uma família simples, de roça, que um dia partiu para visitar um parente distante que adoeceu. Sem ter as passagens, venderam a casa ao vizinho da frente por um mero trocado. Além disso, confiariam o menino aos seus cuidados quando prometeram o retorno que nunca aconteceu. Severo era como o pai: pensava, fazia, então resolveu crescer por si só naquele meio, ser um bom cabra. Como viu a árvore ser derrubada pelo simples desgosto do homem da casa, o menino partiu com saudade deveras chorosa. Antes de ir de vez, arou com os dedos um bocado de terra perto da casa e ali cobriu duas sementes... Calos nas mãos, inchada; braços firmes, labuta; os pelos no rosto eram vivência. Foi-se o tempo longe. A saudade do passado bom o convenceu a voltar. Ao chegar, pôs o chapéu no peito, ficou um tanto sem jeito, silenciou. Apesar de os poucos metros da sua infância estarem vazios, um pé de acerola crescera na terra que arou, pé em que uma mulher descansava recostada. Severo se ajeitou sorrateiro no outro lado do tronco.
       - Sabe, moço, essas frutas são boas, olhe aqui estas sementes!   
       Severo enfim entendeu que, mesmo em tempos de mágoa, é possível colher bons frutos quando se planta amor.

14 comentários:

  1. Não sei nem o que dizer, Marquinho. Me emocionei.

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  2. O problema é o tempo que Severo leva pra voltar pra casa. É paciência pras sementes germinarem, mas cada uma tem seu próprio tempo...

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  3. Para todo tipo de dor, há uma cura, basta lembrar que dentro de nós, florescem coisas além dessas dores.

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  4. Que coisa, linda! Estou muito emocionada com o seu texto, que perfeição sublime!

    Meus parabéns!

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  5. Muito bom marquinho! Gostaria de saber escrever bem assim. :-)

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  6. Uau, que texto lindo...

    Adoro a sensibilidade que você coloca em seus textos! Muito, muito bom!

    Abraços!

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  7. Marco, gostei do seu texto. Estou seguindo você... Acho que quando se escreve com o coração a sensibilidade fala e isso emociona. Parabéns!

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  8. Que final perfeito! Sua escrita emociona, viu.
    Sucesso sempre! Um grande beijo!

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  9. Quando entendemos que amor é essência, algo muito mais intrínseco que de fato imaginamos; toda mágoa se torna descabida. Afinal, quem guarda mágoas, retira de si um precioso espaço, onde poderia existir: AMOR!!!

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  10. simplesmente lindo!!!! Já virei sua fã!!!!

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  11. Sabe Marcos seu texto fez lembrar de meu pai. Parabéns.

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  12. Muito sensível seu texto! Gosto disso!
    Seguindo seu blog, não conhecia!
    Sucesso!

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